sábado, maio 20, 2017

Por aqui

Cada um sabe a que veio
quem não quer encontra desculpa
quem quer encontra meio

Entre tempo e prioridade
teu mal é vontade.

sábado, maio 13, 2017

Fale comigo

A baleia azul assusta, você entra na modinha e publica no Face: estou disponível para conversas, se não quiser falar comigo toma o número do CVV, me importo com quem sofre. Será?
Você compartilha fotos, piadas, sua vida é um comercial de pasta de dente com licença para raras manifestações políticas. Sua família tem tudo para estrelar comercial de margarina. Você se importa realmente com quem sofre?
Pouquíssimos leem textos grandes, e é neles, senhores, que vocês encontrarão as verdadeiras opiniões, os desabafos de um espírito angustiado. Porque antes do pedido de socorro vem o desabafo.
Quem quer desvendar as amarguras do próximo num longo texto? Se você está disposto a ajudar, precisa se interessar pelo outro, ler suas entrelinhas, não apenas acenar dizendo "Pode me procurar". Quem vai procurar ajuda com pessoas que pouco se importam com suas ideias, o que dirá com seus sentimentos?
Não leve uma vida em busca de fotos bonitas, curtidas e compartilhamentos. Busque se envolver mais com as pessoas, saber o que pensam, do que gostam, o que fazem no tempo livre; esqueça o celular nos almoços de domingo, esteja verdadeiramente presente (corpo e mente) nas reuniões entre amigos. Convivendo dessa maneira é que se combate suicídio, depressão, melancolia... toda forma de tristeza, até tédio.
Você está disposto a conversar?

sábado, maio 06, 2017

Para ter olhos de caleidoscópio

(poema escrito em parceria com Guilherme Castanheira)

Recolha os cacos dos seus fracassos
as partes ruins dos dias opacos
tudo que te machuca
tudo que te assusta
jogue nos olhos sem anestesia
sem avisar, sem bater, sem cortesia
o sangue que se vê no processo deixa o mundo
rosa...
é, eu sei, é cruel essa vida nossa,
mas a tristeza não precisa ser cinza
ela é tão bonita

Não julgue
não tente entender
é arte em toda parte
em tudo que se consegue ver

O colorido de tudo que deu errado
um mix de tudo que estragou, lhe foi negado
com uma nesga do momento presente
refletidos no espelho do ego
cêntrico
côncavo
onde o id psicodélico
traduz pro cérebro
toda beleza de um mundo absurdo

O céu é azul
as plantas são verdes
o sol eu não sei porque quando olhei o olho
doeu
o olho do eu
o olho doeu.

sexta-feira, abril 21, 2017

Sobre cavalheirismo

No sábado voltava de ônibus para casa com uma sacola de supermercado – comprei por impulso uma fôrma de silicone, a primeira desse tipo a ser levada para casa. Um bonitinho me oferece lugar. Arregalo os olhos e digo que não, não preciso. Minha sacola estava volumosa porque além da fôrma de bolo tinha uma blusa de frio, mas nada pesada. O ônibus não estava cheio a ponto do volume da sacola incomodar, e se a sacola incomodasse era só se oferecer pra segurar a sacola, não precisava oferecer o lugar. Um absurdo espantoso essa oferta.
No ponto seguinte a passageira da janela desce, eu sento. Passados três minutos pergunto ao rapaz de vinte e poucos (deveria ter essa idade ou menos, teclava no celular usando os dois polegares) se ele havia me oferecido lugar porque achou que eu estivesse grávida. Ele respondeu que não, que me ofereceu porque eu era mulher e talvez estivesse voltando cansada do trabalho. Disse que normalmente oferece lugar pras mulheres. Fiquei feliz em saber que não pareço grávida, não estou tão gorda a ponto de parecer. Disse ao moço que não voltava do trabalho.
Eis minha reação quando me oferecem lugar no transporte público: recusar desesperadamente porque não estou grávida, não carrego criança de colo, não tenho deficiência física, não quebrei nenhum osso, não tenho mais de sessenta anos. Enfim, recusar porque não preciso. Mas a primeira coisa que me vem na cabeça com uma oferta de lugar é que a pessoa me achou tão gorda que pensa que estou grávida. Não vejo uma gentileza, vejo uma ofensa.
Mulher não precisa viajar sentada simplesmente por ser mulher, porque o fulaninho a achou bonita e quer ceder o lugar. Precisa viajar sentado quem tem algum problema físico, ou se acidentou e tem problema de mobilidade, ou sofre com o peso dos anos, ou com o peso de mais alguém. Tantos motivos mais sensatos para ceder lugar e os cavalheiros cedem às damas porque elas são mulheres. Isso não me passa, não sou tão frágil a ponto de precisar de lugar.
Para alegria do moço, não falei a ele o que penso sobre o ato de cavalheirismo. Depois que desci do ônibus reparei que o que incomoda mesmo é o preconceito por trás da gentileza. Quem se acostuma com as coisas do jeito que são, não se importa, até acha bom; mas quem questiona os bons costumes acha o mundo cada vez mais estranho e sem lógica. O mundo é maluco. E olha, eu não sou daqui.