sexta-feira, abril 21, 2017

Sobre cavalheirismo

No sábado voltava de ônibus para casa com uma sacola de supermercado – comprei por impulso uma fôrma de silicone, a primeira desse tipo a ser levada para casa. Um bonitinho me oferece lugar. Arregalo os olhos e digo que não, não preciso. Minha sacola estava volumosa porque além da fôrma de bolo tinha uma blusa de frio, mas nada pesada. O ônibus não estava cheio a ponto do volume da sacola incomodar, e se a sacola incomodasse era só se oferecer pra segurar a sacola, não precisava oferecer o lugar. Um absurdo espantoso essa oferta.
No ponto seguinte a passageira da janela desce, eu sento. Passados três minutos pergunto ao rapaz de vinte e poucos (deveria ter essa idade ou menos, teclava no celular usando os dois polegares) se ele havia me oferecido lugar porque achou que eu estivesse grávida. Ele respondeu que não, que me ofereceu porque eu era mulher e talvez estivesse voltando cansada do trabalho. Disse que normalmente oferece lugar pras mulheres. Fiquei feliz em saber que não pareço grávida, não estou tão gorda a ponto de parecer. Disse ao moço que não voltava do trabalho.
Eis minha reação quando me oferecem lugar no transporte público: recusar desesperadamente porque não estou grávida, não carrego criança de colo, não tenho deficiência física, não quebrei nenhum osso, não tenho mais de sessenta anos. Enfim, recusar porque não preciso. Mas a primeira coisa que me vem na cabeça com uma oferta de lugar é que a pessoa me achou tão gorda que pensa que estou grávida. Não vejo uma gentileza, vejo uma ofensa.
Mulher não precisa viajar sentada simplesmente por ser mulher, porque o fulaninho a achou bonita e quer ceder o lugar. Precisa viajar sentado quem tem algum problema físico, ou se acidentou e tem problema de mobilidade, ou sofre com o peso dos anos, ou com o peso de mais alguém. Tantos motivos mais sensatos para ceder lugar e os cavalheiros cedem às damas porque elas são mulheres. Isso não me passa, não sou tão frágil a ponto de precisar de lugar.
Para alegria do moço, não falei a ele o que penso sobre o ato de cavalheirismo. Depois que desci do ônibus reparei que o que incomoda mesmo é o preconceito por trás da gentileza. Quem se acostuma com as coisas do jeito que são, não se importa, até acha bom; mas quem questiona os bons costumes acha o mundo cada vez mais estranho e sem lógica. O mundo é maluco. E olha, eu não sou daqui.

sexta-feira, abril 14, 2017

Celular necessário

Sob a música tema de Mogli, lá estava a propaganda do novo smartphone da LG cuja promessa é possuir somente o necessário. A campanha diz que “Inteligente é ter o que precisa”. Que proposta infeliz!
Segundo a marca os consumidores precisam de uma câmera traseira com capacidade de 13 megapixels, a frontal contendo 5 megapixels, ambas com foco angular (o que raios isso significa?), memória interna de 32 GB, 2 GB de memória RAM, tela de 5,3 polegadas; condensados em 7,5 cm de largura por 14,8 cm de altura, além de 8 mm de espessura, pesando 138 gramas. Você precisa de um celular sistema operacional de última linha, processador Octa-Core – que na verdade são 2 processadores, leve, com muita memória para… Tirar foto. Assistir filmes e séries na tela que deixou de ser pequena há muito tempo, navegar na internet, usar redes sociais, jogar. Se você tiver um perfil menos multimídia também pode ler arquivos em PDF, baixar um leitor de e-book e fazer a festa, baixar a suíte gratuita do Office para visualizar e criar documentos com as mesmas qualidades que utiliza no computador – com algumas limitações no tocante a edição, mas o formato salvo é igual ao do computador, não é necessário adaptar nada ao mudar o documento de aparelho.
O samrtphone é de fato um mini computador. Com a vantagem de pegar rádio e fazer ligações. Não há outro aparelho que contenha ainda essas duas esquecidas funções na era do Spotify e da chamada de vídeo pelo Whatsapp. Acesso a internet resolve tudo, mas quando o acesso falha e precisamos buscar alternativas, lá estão elas.
Será que esse novo celular contém o que se considera necessário? O ponto é: se você já está bem com o que possui, não se sente limitado quanto ao espaço de memória, não vê problemas no sistema operacional, não sentiu falta de nitidez nas fotos que tira, por quê comprar um novo modelo? Você pode ficar satisfeito com um aparelho que ofereça bem menos do que o celular da propaganda. Há seres iluminados que vivem com celular que não acessa internet e são ótimas pessoas: mantêm-se longe da fissura por redes sociais.
“Inteligente é ter o que precisa” porque a marca sabe que existem smartphones com mais recursos fabricados pelas concorrentes. O público-alvo dessa propaganda são pessoas que não querem de fato a última tecnologia do momento, mas querem algo bom. Não querem ostentar um celular top de linha, contentam-se com um que possua bons recursos. Alguém que ache que o melhor mesmo é consumir de forma consciente, levar apenas o que precisa, de acordo com suas necessidades.
Porém não é porque uma propaganda diz que o necessário para viver bem é o bendito celular que todos devem comprá-lo. O necessário para viver bem não é dito por propagandas, livros de auto-ajuda, livros em geral, programas de televisão, vídeos no Youtube da vida, revistas, jornais, palestras, religiões, filosofias, políticas, sistemas, doutrinas… o necessário para viver bem é algo que cada um sabe no seu íntimo. Sem contar que as necessidades mudam durante a vida.
Quem precisa de um celular novo?

segunda-feira, abril 03, 2017

Extremamente estranhos

Eles vieram pequenos, minúsculos. Eram relativamente independentes, faziam comida com o lixo que encontravam, com o que havia de mais abundante. Primeiro tomaram os oceanos. Alguns continuam lá, mas não em águas muito profundas.
Depois avançaram para a terra. Primeiro se associando a decompositores igualmente pequenos e cheios de água. Depois que se acostumaram com a relativa secura, começaram a se disseminar por esporos. Eram exploradores pioneiros, exploravam lugares nunca antes habitados. Nessa segunda fase ainda eram pequenos, mas tentavam expandir suas fronteiras pelo ar.
Querem dominar o planeta. Cresceram, hoje reproduzem-se com ajuda de animais ou do vento, mas há os que ainda conseguem clonar a si mesmos como quando se reproduziam por esporos, não descartaram nenhuma de suas fases evolutivas.
Há os que vivem por meses, outros apenas alguns anos, os que suportam décadas e os que atravessam séculos de existência. Sob áridas dificuldades, já que a vida no planeta Terra nunca foi fácil.
Alguns desses seres multicoloridos já foram mistificados: houve um tempo em que se acreditava que seres mitológicos entrelaçavam suas vidas a eles. Eram protegidos por superstição.
Pelo fato da maioria iniciar a vida e aprofundar-se nas entranhas da terra e ao mesmo tempo se expandir rumo ao céu, sendo que alguns conseguem atingir grandes alturas, simbolizam a transformação do que é terreno, mundano, em algo celeste, mais puro de sentimentos. Representam essa transição.
Purificam o ambiente em que vivem, geralmente são os primeiros a sentirem mudanças ambientais. Regeneram-se sozinhos, se reproduzem até de forma assexuada, têm as mais variadas cores e formas. Têm tudo para serem extraterrestres mas na verdade estão no planeta há muito mais tempo do que a raça humana: são indivíduos do reino Plantae.

quarta-feira, março 29, 2017

Flor da alegria

Entro no elevador e encontro uma amiga. Mostro toda feliz a florzinha amarela bem perfumada que ganhei na hora do almoço, distribuída num evento para os funcionários.
Grampeado ao saquinho vai um folheto contra a dengue, pois a planta repele insetos.
Minha amiga pergunta o nome da flor. Abro um sorriso enorme e digo cheia de orgulho: Cravo de Defunto.
Originária do México, muito utilizada nas festas do Dia dos Mortos. Me entregaram sob o nome científico de Tagetes, e ela também é conhecida como Cravo Francês.
Entretanto no popular nacional não disfarço, não me envergonho, ela é o que é: um alegre, amarelo e perfumado Cravo de Defunto.