segunda-feira, junho 08, 2020

Durante a quarentena - 81º dia


Lírio da paz não aguentou trabalhar o tempo todo do meu lado. Desde a última quinta-feira ele passa as manhãs tomando sol na cômoda, vem para o meu ladinho somente depois do almoço. Ele é estagiário, trabalha meio período. Final de semana ele se liberta: passa o tempo todo fora e só aparece na minha escrivaninha segunda-feira depois do almoço. Ele envelheceu, as folhas amarelas foram podadas. Agora ele está bem, cheio de energia com a chuva do fim de semana.
Baixei aplicativos na TV, que não funcionaram. Isso me motivou a baixar aplicativos semelhantes no celular. Um de caraoquê, outro de yôga. Desde sábado me canso mais com os cinco minutos de yôga. nível 1 do aplicativo do que com os dez ou quinze minutos de caminhada no stepper que faço antes. Desde sábado rio da minha voz, percebo o quão difícil é cantar, azucrino os amigos com minhas gravações. Felizmente enviei apenas uma música a eles; mas já gravei cinco canções, incluindo a canção teste – que não foi “Meu limão meu limoeiro”, que vivo cantando ao tratar dos passarinhos, mas “Alecrim Dourado”.
Ontem fiz xampu e óleo facial, o que me deixou muito animada. No início da semana o plano era apenas fazer o xampu, mas vi a receita de óleo de babosa durante a semana e resolvi fazer.
Meu hidratante noturno era azeite de oliva com óleo essencial de laranja. Ele acabou faz um tempo, precisava repor. O óleo de babosa (Aloe Vera) é feito de um dia para o outro. Preparei no sábado, domingo estava pronto. Separei os 30 ml do frasco do hidratante noturno. Como era outro óleo nem lavei antes, coloquei direto, depois pinguei o óleo de laranja. Aloe Vera já tem vitamina C, acrescentei mais com a laranja. O óleo tem também muita vitamina E, e um perfume suave muito agradável, mal lembra o cheiro do gel da planta ao natural. Fiz o teste alérgico desse óleo noturno e tudo bem, começo a usar hoje a noite no rosto.
O xampu tem por base caroço de abacate. Ralado, depois fervido, por fim coado depois de frio. Depois que começou a ferver baixei o fogo e acrescentei os ingredientes opcionais: sabão de coco, vinagre, óleo essencial (só tenho de laranja), óleo de Aloe Vera. Mexi por cinco minutos. Depois esperei esfriar e coei. Rendeu 500 ml, sendo que havia colocado 600 para ferver junto com o caraço de abacate. O óleo de Aloe Vera na receita não foi indicação de ninguém, coloquei porque hidrata e amacia os cabelos, e principalmente porque sobrou do hidratante facial e não havia quantidade suficiente para transformar em hidratante corporal. Não queria mesmo muito óleo, uma folha grande de babosa rendeu 100 ml.
O xampu deixa o cabelo bem perfumado, até o início da manhã ainda sentia o suave cheiro de sabão de coco. Aquele cheiro atraente da barrinha de sabão de coco no mercado: suave, sem exagero. O xampu não faz espuma mas limpa profundamente, as pontas dos meus cabelos amanheceram ressecadas. Yamasterol clássico entrou em cena como creme de pentear, usei só nas pontas. Normalmente não tenho paciência para usar cremes de pentear nem hidratações capilares, uso somente quando precisa.
Tudo isso significa que, para minha alegria, comecei a usar um xampu de babosa sem parabenos, além de já usar um condicionador com as mesmas propriedades. Meu cabelo tem tudo para crescer saudável com o brilho e a maciez da Aloe Vera.
O processo de fazer os próprios cosméticos, envolvendo mais do que simplesmente comprar e misturar os ingredientes, foi muito enriquecedor. O produto final tem outra importância porque acompanhei e cuidei de cada componente. Levou-me a perceber que horta é algo essencial na minha casa, item que me dá uma qualidade de vida imensa. Foi bom descobrir mais esse tipo de artesanato, dessa vez envolvendo mais ciência e estudos do que as peças de crochê, que trabalham com lógica espacial. Incrível como a vaidade e a busca por uma vida mais econômica me levou a ter mais contato com a natureza. Levou-me ao contato com a parte primitiva das coisas.
Quem mora no campo está acostumado em fazer por si mesmo quase tudo que precisa. Reclama do trabalho que dá e vê o povo da cidade com a facilidade de encontrar grande variedade de produtos. Raras pessoas que moram nas cidades se importam com o processo de fabricação dos produtos que consomem, ou os reais componentes deles – coisa que um morador rural sabe. Raros produtos da imensa variedade oferecida nas cidades foram criados especialmente para um consumidor específico, isso ocorre nas farmácias de manipulação (embora muitas fórmulas sejam genéricas) e nos restaurantes.
Por isso para alguém da cidade é muito mágico descobrir todo o processo de fabricação de algo, é um contato com a realidade do qual sempre estivemos privados. Tem quem fique horrorizado com as crueldades dos processos de produção, principalmente se envolver carne; outros se apavoram com os venenos, a degradação ambiental; os hipocondríacos se alucinam com a toxidade de tudo que consumimos, o quão mal pequenas quantidades rotineiras podem nos fazer a longo prazo. Desse choque surgem os militantes vegetarianos e veganos, que tudo que queriam no início de suas buscas era uma vida mais saudável. Cada um tem seu tempo, suas questões mais pertinentes. Ninguém precisa militar feericamente uma causa o tempo inteiro, porém é graças aos militantes que sabemos que existem alternativas.
A quarentena me leva a consumir menos, a me relacionar mais com meus pais, os animais, as plantas, e comigo mesma. Esse é o microcosmo do meu 81º dia de isolamento social.

domingo, maio 31, 2020

Durante a quarentena - 73º dia

Hoje é domingo e faz uma semana que voltei a praticar atividade física. Eram 5 minutos no stepper todo dia, hoje foram para 10. Precisei de mais de dois meses confinada para sentir necessidade de me exercitar.
Reorganizo minha vida aos poucos, nessa quarentena que parece não ter fim. Outra necessidade que brotou semana passada foi a companhia de uma planta durante o trabalho. Felizmente meus pais adoram plantas. Estamos em pleno outono, dia 22 entramos na lua nova, não podia pedir época melhor para meu pai separar uma mudinha e trazer o lírio da paz para minha escrivaninha. Essa planta suporta ambientes pouco iluminados.
Domingo passado a muda foi separada. Desde então separo um tempo para trocar uma ideia com as plantas da garagem, que é onde está o vaso da moita mãe do lírio da paz. Minha planta ficou na garagem por três dias para se habituar com o novo vaso. Eu precisava dar as boas vindas a minha plantinha nova, prepará-la psicologicamente, acabei simpatizando com o matagal da garagem; afinal moramos todos juntos. Prometi dar notícias do lírio depois que ele fosse para o meu quarto, para as amigas não sentirem saudades.
Lírio da paz é um bom colega de trabalho. Sempre presente, muito bom ouvinte, nunca tira folga, trabalha do nascer ao pôr do sol. Ele está em fase de dormência, não se pode esperar muito dele até o fim do inverno, apenas que se adapte bem e goste do lugar. Ele não gosta muito de luz, a folha que mais recebe claridade amarelou nesses dias ao meu lado. As outras doze folhas estão bem.
A quarentena será flexibilizada no Estado de São Paulo. Foram criados 5 níveis e a capital está num nível acima da região metropolitana. Mesmo com menor taxa de pessoas em casa, mesmo com maior proporção de leitos hospitalares ocupados, mesmo com mais mortes em relação aos municípios vizinhos. A justificativa? A capital tem estrutura para abrir escritórios, comércios de rua e concessionárias. Eu acredito? A lógica não deixa.
A cidade receber nível 2 para manter o isolamento social não significa que volto ao trabalho presencial logo menos em junho, a liberação para o trabalho será gradual e dependerá de licenças. Meu trabalho especificamente deixará de ser remoto quando a chefia aprovar, no momento a divisão inteira trabalha remotamente.
Não espero que tão cedo possamos voltar a trabalhar como antes, frequentar academia, centro espírita, sair com a cachorra, caminhar no parque. Nesses 73 dias de quarentena criei uma normalidade, me reorganizei, de fato aderi a uma nova rotina, só me resta esperar por mudanças que não dependem muito de mim. O que posso fazer é ser prestativa e cuidar de quem está em casa comigo. Sejam meus pais, meus emplumados, a gata, a cachorra, as plantas. Cuidar da vida que se manifesta em mim e a minha volta, amar ao próximo como a eu mesma e a Deus sobre todas as coisas.
Não pensei que ficar em isolamento social faria com que me questionasse, tomasse resoluções, e fosse tão transformador quanto peregrinar, entrar em contato com a natureza e todas suas intempéries, conhecer outras pessoas. Com tanto tempo de convivência, sinto um ambiente mais calmo e agradável em relação ao início da quarentena.
Fiquei menos tensa com todas as obrigações que abracei para mim. Escolhi quais quero, eliminei as que não interessavam, incluí outras benéficas. Assim é o processo de mudança de rotina.

quarta-feira, maio 13, 2020

Durante a quarentena - 55º dia

Hoje faz uma semana que voltei de férias e iniciei a experiência de trabalhar remotamente. Gerencio agenda, aviso pessoas sobre as reuniões.
Como não precisaria sair de casa, no segundo dia de trabalho pintei o rosto. Geralmente trabalho de cara lavada, muito bem hidratada de manhã. Protetor solar só vejo quando saio, deixei de usar todo dia.
Nessa semana aprendi a usar melhor as ferramentas do celular, conheci um programa novo. Ambiente tranquilo, ritmo de trabalho suave, sem ver as flores do Pão de Açúcar, sem encontrar os perueiros oferecendo transporte ilegal para a praia.
Ontem o presidente e o ministério da economia ampliaram a gama do que é considerado serviço essencial: barbearia, salão de beleza e academia também prestam serviços essenciais. O Brasil passa a marca de 12 mil mortos pela COVID 19, muitas cidades e Estados acirram o confinamento. Na cidade de São Paulo, para evitar a circulação, o prefeito criou novo rodízio de veículos: carros pares saem nos dias pares, ímpares no dias ímpares. Em meio a isso vem a possibilidade de colocar mais gente para trabalhar, mais pessoas circulando, mais pessoas em risco, mesmo com o sistema de saúde entrando em colapso.
O governo federal pensa no bem de que povo? O governo sabe mesmo o que é essencial para viver? Com esse histórico mestre em esbanjar recursos que não lhe pertencem?
Ainda estou em ritmo de férias, não me acertei com a rotina e me atraso para entrar no trabalho. Mesmo em casa. Continuo prestativa, disponível no meu canto, procuro não incomodar a equipe. Uma das minhas qualidades que descobri ao sair de férias ano passado foi essa: dificilmente incomodar os colegas.
No ambiente marco presença, sou alegre, porém fico na minha bolha, entrego o que me pedem, dificilmente ofereço serviço. Por outro lado recusar serviço não é comigo. Se não sei vou dar a cara a tapa e aprender na marra. Assim é meu aprendizado, preciso errar e penar um pouco para fixar os conhecimentos.
Essa primeira semana na vida de home office foi de muito aprendizado.

terça-feira, maio 05, 2020

Durante a quarentena - 47º dia

Hoje terminam minhas férias. Elas não seguiram o plano A, percorrer o Caminho da Fé em sua rota mais tradicional ou quase (quero ir por Pindamonhangaba, em vez de Guaratinguetá); nem seguiram o férreo plano B, muito crochê, oração e estudos. Tive o plano B como guia, a execução foi bem suave.
Fiz crochê religiosamente, somente um dia deixei de fazer. O resultado foram 5 presentes para amigas e uma bolsa média de lacre de latinha quase no fim para mim. Essa bolsa é um projeto que estava parado há anos, depois dela tenho outra bolsa pequena para mim. Listei vários projetos de crochê, a maioria presente.
Oração com a família até comecei bem, depois deixei de lado.
Quanto a estudos, foco na apostila do concurso. Estudo pouco porque me levanto tarde, mas estudo de domingo a sexta-feira. Sábado não costumo estudar.
Voltar a fazer unhas foi uma felicidade sem tamanho, empolguei-me como nunca. Montei lista das resenhas de esmalte que pretendo fazer.
Foram as férias das listas: lista dos projetos de crochê, lista de esmaltes para resenhar, lista do que farei quando tiver dinheiro.
Em meio as crises de saúde, políticas e econômicas, eu e meus pais não passamos dificuldades graças a minha reserva de emergência, ainda que incompleta. Como anteciparam parte do 13º de meus pais, eles já devolveram a quantia. Meu foco agora é economizar cada centavo para completar minha reserva o mais breve possível e depois poder investir em outros projetos que não seja sobrevivência básica.
Politicamente tenho muitas divergências com meus pais, especialmente meu pai, porém a gente não discute. Deixo ele assistir os canais estranhos do YouTube a vontade, ser um patriota com orgulho. Deus é mais. Ensinar meu pai a pensar de outra forma? Com a idade e o orgulho que ele tem? Quem sou eu? Dou meu exemplo, e questiono algumas atitudes pessoais do meu pai.
Não questiono figuras públicas, é inútil pois não dão ouvidos a qualquer um. Questiono quem convive comigo, questiono meus pais e a mim mesma. Faço a diferença para quem convive comigo, porém quem posso mudar é apenas uma pessoa: eu.
Constatei nessas férias que sou muito preguiçosa – vivo levantando tarde; generosa – invento presente adoidado; metódica - adoro arquitetar os mais belos castelos de areia; sobrestimo minha capacidade – ainda não comecei meu jogo americano com a linha mesclada que comprei para as férias.
Segundo o governador do Estado, a quarentena segue até dia 10 de maio. Provavelmente será prorrogada pois ainda não foi atingida a meta de 80% de adesão da população.
Quando retomarei a rotina antiga de trabalho? Não tenho a menor previsão. Sei apenas que hoje é meu último dia de férias.